quinta-feira, 26 de abril de 2018

O dia oficial da saudade





Diga ao dia da saudade que a sua data oficial pertence ao dia 26 de abril.

Diga ao dia da saudade que hoje é o seu aniversário e que eu pensei em ti o mês inteiro. Mudo de lugar. Mudo de rua. Espalho o pensamento. Mas o mundo não muda de mim.

O amor não é sobre quem vem primeiro ou quem vem por último. É sobre quem vem e nunca vai embora.

Um pedaço do meu coração cantou esta manhã ao acordar, por saber que é o seu aniversário, Ju. Lá de dentro, a alma assobiou; Assim como, a outra metade (tão proporcional neste instante) do mesmo coração foi desassossegada. Em analogia, quase como uma ventania em dia de verão: primeiro você se torna aliviado por aquele vento ter chegado e refrescado sua tarde; mas também torna-se preocupado por o mesmo vento está a levantar poeira demais (e talvez peça, intuitivamente, para Deus, Anjos, Alá e Orixás para te proteger do que possa vir).

Hoje, pela segunda vez em seu aniversário, eu passei "sozinha". Talvez por esse motivo, na noite em que precedeu a data tive insonia - e por diversas vezes coloquei a culpa no calor ou no barulho. Modo mais fácil de pensar no motivo real de minha inquietude, única:

A Saudade.

Há alguns anos eu já sou a mais velha de nós dois. Você se tornou o meu caçula e nunca terá alguns fios de cabelo branco na têmpora (ao contrário de mim que encontrei uns dois ou três fios na fronte). Hoje, eu olhei diversas vezes para o céu e imaginei que daí você me abraça (nunca no passado, porque quando amamos, a presença espiritual torna-se muito presente). Em pensamento fiz seu bolo de aniversário e te comprei um belo presente. Também deitei ao seu lado, te acordando com um beijo no ombro, porque eu fazia isso. Em meu pensamento, entre um paciente e outro, conversamos. Eu sorri a maior parte do dia e imaginei você parado na porta me olhando como neste sorriso bonito da foto: alvo.

Hoje, como poucas vezes me aconteceu, as palavras vindas de meu coração, não foram parar na ponta de meus dedos, pararam em minha garganta de uma forma que dói e as letras insistiram em descer em formas de lágrimas. Isso tudo porque é o seu aniversário, meu amor, meu irmão.

E irmão, no dicionários dos meus sentimentos: "é o olhar na parte dos seus olhos que brilham quando você tá feliz e sente felicidade também. É saber de cor o som da sua risada de quando éramos pequenos. É ter certeza da verdade que sai da sua boca, mesmo que eu não escute som algum. É ter a sincronia de uma equipe olímpica, sem as olimpíadas. É sentir que viemos ao mundo para afastar, um do outro, o mal da solidão. É quando a cumplicidade se torna mais importante do que o sangue".

E como comecei, termino: hoje é o dia oficial do amor. E o amor não é sobre quem vem primeiro ou quem vem por último. É sobre quem vem e nunca vai embora.

E neste amor, você carrega o meu coração.

Sua irmã.

L.



Dedicado a meu irmão que me sorri do céu
Jorge Luiz (26/04/1980 - 04/12/2003)






segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Encontro marcado



“Tens uma sensibilidade encantadora, L.

Eu acho que ainda foi nas últimas 24 horas... foi nas últimas 24 horas, ainda pensei... como ainda não me encontrei com ela?”

Ele. Porto Alegre, 14 de Setembro de 2016. Às 20:06.



Quando leu “estou embaixo do guarda sol amarelo, ao lado de um cheio de frutas, por enquanto... e de frente para o hotel te esperando”, ela sorriu. Ansiosa. Um pouco inquieta, ainda no saguão do aeroporto. Os batimentos cardíacos aceleraram-se e sentiu a respiração um pouco mais ávida por folego. Deveria apenas se acalmar. Pensar em tudo: da primeira palavra àquele momento passaram-se oito anos. E finalmente eles haviam decidido se encontrar; após muitos desencontros.

Feito o check in no hotel, ela subiu até o décimo andar com passos lentos, sentimentos agitados, sorriso nos lábios e coração disparado. Abriu a porta. Sabia que ele não se encontrava ali, havia a mensagem. Encostou a mala em um canto da parede e foi até a sacada defronte ao mar. Ele a esperava na praia. Poucos metros os separavam, pensou.

“Esta é a vista da habitação. Estou com pouca bateria... mas estarei de olho na sacadinha esperando algum sinal. E posso te aguardar na praia para um mate limão... Beijo”.

As famosas borboletas então agitavam-se e naquele instante é que realmente deu por si, percebendo onde estava. Havia um encontro marcado. Embarcaram rumo ao (des)conhecido. Percorreu o quarto, olhou os detalhes e viu a mochila com algumas roupas dobradas sobre a cadeira. Passou a mão em uma blusa dele, querendo se sentir um pouco mais próxima. Sorriu. Agitou-se novamente. Sentou-se na cama e decidiu banhar-se.

(Rio de Janeiro, 20 de Setembro de 2017) mais calma ela enviou: “pronto para me encontrar?”. À porta, escuta um toque, sincronizado com sua mensagem, em resposta ao seu pensamento. Era ele. Poucos passos os separavam. Não mais do que dez. Caminhou devagar, sorriu e abriu a porta.

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Bermuda, camiseta e chinelos. Resquícios de praia (ou vestígio de ansiedade?). Ele diante dela. Vestido e sandálias. Ela diante dele. Não recordou o que foi dito. Ele, todo sorriso e os olhos diziam mais. Ela, também. Se abraçaram ainda a porta. Os braços dele, na cintura dela. Os braços dela, acima dos ombros dele (na ponta dos pés).

Um abraço de vidas, pensou. Sem palavras.

Conseguiram falar? Quão agitados estavam? Quanto tempo durou? Não se sabe.

Um beijo tímido, no canto dos lábios. Um olhar de cumplicidade. Estavam ali. E olharam-se nos olhos... ainda procurando por palavras, soltas nos lábios, próximos, sem muita ação. Até serem levados à sacada.

Abraçaram-se. Deram as mãos e se beijaram... uma, duas, três, quatro.... vezes e mais vezes. Sempre tivera o desejo de passar as mãos naqueles cabelos pretos, macios e como lembrava “com alguns fios a se misturarem”. Sentiu aqueles braços envoltos em seu corpo (a melhor sensação possível) e estremeceu.

Os beijos d’antes tímidos, ritmaram-se. Havia ali vida! Pulsações em todos os poros, toda paz e desejo. Uma vontade que crescia, abraços mais apertados. Aquele corpo junto ao dela. Aquelas mãos fortes e de dedos bonitos subiram até sua coxa. Arrepio. Olho no olho. E por um segundo, não reagiu ao toque, àquele contato, não por inércia, mas por vontade de querer sentí-lo ainda mais. Um segundo apenas e ele suspirou “adorada...”.

Então, sucedeu: o big bang. Ou seria exatamente o contrário? O universo chegou-se para dentro de si. Nenhum som ao redor. Primavera. O ano novo. Alinhamento dos astros. Naqueles braços ela lembrou o que ele havia escrito e não haviam palavras para descrever aquele postulado:

“Sabe um suspiro? To sorrindo... venta, venta muito, Doutora, a primavera fresteia os dias assustada pelo açoite do Minuano incessante. Eu te desejando, te desejando a paz que tu sempre me traz”.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Você é o meu sol




"Saudei o sol, levantando a mão direita, 
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus, 
Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada."
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)



Ao amanhecer: o nascer do sol.

Você é ainda criança. Corre pelo quintal. Brinca de Comandos em Ação. Solta o Puma. Aprende a andar de bicicleta sem as rodinhas de proteção lateral (cedo demais).

Eu nasci.

Você ainda é criança e aprende a me amar. O ciúmes dos primeiros meses passam, segundo nossos pais, rapidamente. Era inverno. E você, filho do outono, aqueceu minhas manhãs. Meu raio de sol.

Antes do meio dia:

Você está adolescente. Tem os cabelos negros e lisos. E o sorriso mais bonito do mundo. Além dos olhos azuis (também) os mais bonitos do mundo. E eu quis ter a cor de seus olhos e chorava porque os meus não eram azuis, quando eu aprendi a me expressar.

Você e eu brincamos. Você me ensina a subir no muro da casa da vovó para ver tudo do alto. Primeiro diz que é para eu ficar sentada, olhando como eu devo me equilibrar. Até eu aprender. Até você ter confiança para descer e me deixar sozinha em cima de um muro bastante alto para fazer pão com mel para mim. Eu adoro: o muro, devido a altura, o doce do mel e você. Nós passamos horas como gatos em cima do muro, nos equilibrando, e sempre descíamos antes que os nossos pais chegassem em casa.

Certa vez, eu estava passando a tarde no alto da árvore de jabuticaba e ouço alguém me chamar. Era do outro lado do muro, divisa com a Escola Estadual. Eu olho. Me viro. Era uma menina adolescente me perguntando o nome do menino dos olhos azuis que brincava comigo. Meu irmão. Tenho raiva. Ela também te acha bonito! Mostro a língua. Nossos seis anos de diferença de idade me permitem fazer isso. Mas digo: “meu irmão, Jorge Luiz”. Eu deveria estar tão irritada com aquela adolescente, porque eu nunca te chamei de Jorge Luiz (a vovó Edla te chama assim). Para mim: Ju, Juninho.

Ainda pela manhã: O sol está atravessando pelo leste.

Você já apresenta uma barba rala e falha (foi sempre assim). Você resolve fazer uma tatuagem no bíceps à direita. Uma lua crescente. Ridícula! Até que nossos pais descobrem... Não me recordo se houve desaprovação. Talvez tenha havido pois você era adolescente. E para consertar, você fez um unicórnio, com a lua atrás e duas estrelas.

São dez horas: o sol contínua ao alto. Brilha forte.

Sua letra é linda. E o seu coração também.

Eu começo a sair e a paquerar. Você é um irmão ciumento e espanta todas as possibilidades dos garotos chegarem em mim. Eu vou ao Saloon (antigo bar marianense) e você manda eu sair lá de dentro todas as vezes em que me encontrou e fala que já é hora de eu ir para casa, senão você mesmo me levaria ou contaria aos nossos pais. Eu roubo um Free Box de nossos pais, você percebe e briga feio comigo. E então, todas as vezes em que eu saia à noite, você chegava próximo de mim na rua e falava “deixa eu cheirar sua boca!”. Eu dizia: “sai fora, Ju!”. Você respondia: “Lalá, to de olho. Fica esperta!”. Eu fiquei.

Você começou a namorar. Sua namorada é legal e sempre me defende quando você dizia que eu não podia fazer algo devido a minha idade. Até mesmo você se convencer que eu estava crescendo e me levou diversas vezes à noite para passear em Ouro Preto! Eu me sentia gente grande. Eu adorava.

Um dia você falou: “chega ai, Lalá, vou te mostrar uma música”. Era Pink Floyd, Wish You Here Were. Desse dia em diante, todas as vezes em que essa música tocou eu me lembrei de você. E após sua ida, esta música continuou a marcar meu caminho. Como no dia em que comprei meu primeiro carro. Eu estava na concessionária, ainda em dúvida, o celular de alguém toca: Bob Dylan e a nossa música Wish You Here Were. Caiu um temporal e apareceu um arco íris no céu (outro símbolo que você me ensinou a amar). Eu fiz negócio. E sei que você ficaria orgulhoso. E eu entendi que você daí estava orgulhoso.

Você é doce, calmo e tranquilo. Você me protege e afasta de mim todos os males.

É meio dia: sol a pino. O zênite.

Hoje é o seu aniversário. De alguma forma, eu mantive o pensamento em você. Eu escrevi a data de hoje várias e várias vezes, conforme eu atendia meus pacientes. E todas as vezes em que eu escrevia 26 de Abril, eu sorria, assim como apertava meu coração. Então, eu mandei uma mensagem para nossos pais muito cedo, pedindo para que eles procurassem uma foto de você de calça jeans e blusa branca sentado comigo vestida de gatinha. Confesso que eu poderia ter pedido nossos pais para procurarem essa foto em outra data, mas não consegui. E finalmente nossos pais acharam (após procurarem por muitas caixas de fotos e provavelmente verem várias de nossa família junta).

Então, eu te abracei e comecei a escrever essa carta de aniversário. Para chegar no céu. Talvez eu amarre o rascunho em uma pipa azul, para que ela suba sem direção.

Hojé, Ju, eu sou novamente a sua concha. E tenho me tornado mais velha de nós dois. Eu deveria te proteger, mas você tornou-se meu anjo guardião.

Hoje, a saudade é maior.

Hoje, o sol teve que brilhar muito mais para aquecer meu coração.

Você é o meu sol. E eu amo você.

Sua irma.
L.





Quando a saudade aperta, escrevo a você.
Jorge Luiz (26/04/1980 - 04/12/2003)

domingo, 5 de março de 2017

Diário Médico: o vento na popa do navio



"Conheça todas as teorias. 
Domine todas as técnicas,
mas ao tocar uma ama humana
seja apenas outra alma humana"
Carl Jung



Marlon, meu paciente desde o primeiro mês em que cheguei aqui, há quase trezentos e sessenta e cinco dias.

Meu paciente que aos vinte e três anos sofreu um traumatismo raquimedular Frankel A, quando pela manhã voltava de motocicleta (ao deixar seu pai no trabalho e regressar ao seu); Quando o motorista infrator o atropelou e não prestou assistência, fugindo do local covardemente, possivelmente mudando o futuro de meu jovem paciente. Bonito, educado, trabalhador e cheio de vida. Meses depois, quando já tínhamos estabelecido uma relação médico paciente sólida ele me contou... que agora o motorista já havia sido identificado e simplesmente declarou "deixa que o seguro cobre". E não disse ao menos "eu sinto muito, meu menino".

Eu senti.

Eu senti muito quando em minha primeira semana, antes de conhecê-lo soube dos fatos. E confesso que senti quando nos conhecemos e que meu coração apertou-se. Mas no primeiro encontro, percebi em seu olhar um brilho de vida. Iriamos readaptar e dar a volta por cima. Conheci sua família pouco a pouco, em cada consulta quando eles o acompanhavam. Até que hoje nos reencontramos. Quando o atendi, e vi você vindo com aquele sorriso bonito eu vibrei por dentro! Creio que atrasei todas as minhas consultas restantes, pois devo ter ficado contigo e sua mãe cerca de uns quarenta minutos. Vibrei por ver que você estava com aquele sorriso e olhar brilhante do dia de minha primeira consulta médica, em uma visita domiciliar. E me senti mais feliz por saber que a sua reabilitação está de "vento em popa", como na linguagem náutica: a popa é a parte de trás de um barco ou navio. Quando o vento sopra na parte posterior do barco (popa), o ajuda a deslizar com mais velocidade para frente. E agora você está fazendo natação, musculação e fisioterapia, além de ter assumido seu trabalho e continuado a viver com a mesma intensidade. Isso é seguir com o vento!

Meu menino, meu querido paciente o mundo é seu! O mundo tem e terá o tamanho dos seus sentimentos: que ao meu ver são infinitos e grandiosos! Aproveito para dizer que um dos significados da palavra "paciente" é: que (ou quem) não desiste, ser perseverante, persistente. E essas qualidades você tem! Enquanto eu te consulto, eu também aprendo muito contigo, Marlon. E eu sou grata por ter te conhecido.

Meu abraço carinhoso,

da Doutora que ganhou um amigo,

Larissa.

Moon of the Day